Isso não era pra ser um dia nostálgico. Assim como eu não era pra estar cantando o refrão dessa maldita música, com os olhos fechados e o coração na ponta da língua. Eu juro que, por uma mínima fração de segundos, quase pude sentir você. E a sua voz doce se misturar junto com a minha, emboladas, arrastadas e roucas na mesma estrofe. (
Coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na dispensa. Cabe o meu amor.) Mentira - eu digo, dessa vez em voz alta. Algo fugiu do controle e pulou as barreiras do meu pensamento. Qual o número do tal alguém que colocou essa frase falsa no meio do enredo? Meu amor, ao contrário do que foi citado, não cabe no coração. Nem na dispensa. Nem no guarda-roupas, no jardim ou debaixo do tapete da sala. Meu amor não cabe em mim e, exatamente por isso, eu jorro ele através de filmes, músicas, fotos, lembranças. Eu queria, de verdade, poder juntar todos os bocados de amores que deixei no caminho e guardá-los em uma caixinha onde ninguém ruim - ou bom - irá encontrar. Cansa essa história de ter tanto amor dentro do peito e não saber onde colocar. Dói mais ainda quando não se tem outro peito pra dividir esse amor.
É nessas horas que passa pela minha cabeça uma vaga lembrança do seu sorriso. Eu juro, de todas as coisas do mundo, tudo o que eu mais queria era que fosse você quem estivesse sentado no banco do passageiro, rindo, colocando a sua mão esquerda sobre a minha mão direita e dizendo coisas como esse-momento-nunca-vai-ter-fim. Mas o assento está vazio, assemelhando-se ao meu interior. A música parece não ter mais fim, também. Mas uma coisa - a pior delas - teve fim: nós. (Cabem três vidas inteiras. Cabe uma penteadeira. Cabe nós dois.) Outro erro imperdoável em menos de quatro segundos. A gente não cabe nesse texto. A gente não cabe na música. A gente, definitivamente, não cabe um no outro. Porque a gente é grande demais pra caber em qualquer coisa. E qualquer coisa sempre é pequena demais pra descrever a gente. Tirando o fato de que o seu número e o seu endereço não são mais os mesmos, não sei exatamente como te fazer ouvir o meu grito de desespero.
Por Deus, era só uma música. Seis estrofes e nada mais. O problema, meu bem, é que não é só você. Você nunca é apenas “
isso”. Você é tudo. E é esse tudo que machuca, dói e faz arder a ferida antes fechada. Por fim, as lágrimas começam a fazer o caminho do meu rosto pela centésima vez em apenas duas semanas. Acabo, enfim, entregando os pontos. Me debruço sobre o volante e choro ininterruptamente por uns 15 ou 20 minutos. Refaço o caminho de volta pra casa, enquanto as últimas cifras da música são cantaroladas no radio. Tudo fica mudo. Eu fico muda. Mas o meu coração ainda grita o seu nome. (
Meu amor, essa não é a minha última oração.)